Literatura infantil: a importância de um mundo leitor inclusivo para as crianças

Entrevistamos a escritora Janine Rodrigues para falar sobre como a literatura infantil pode trabalhar uma educação inclusiva


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Os livros são objetos únicos: podem desenvolver a criatividade, a empatia, o raciocínio lógico, a linguagem, além de ajudar no processo de alfabetização das crianças. A literatura infantil, com as suas histórias e personagens próprios, faz a mediação, ou o meio de campo, entre as crianças e o universo literário.


Mas é comum os pais, ou os responsáveis, se perguntarem: o que caracteriza a literatura infantil? A verdade é que não existe uma resposta fechada, como uma receita de bolo, para essa pergunta.


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A literatura infantil é caracterizada por várias qualidades, a principal delas é o interesse que determinado livro desperta ou não nas crianças. Em geral, livros ilustrados, com diálogos dinâmicos e seres fantásticos despertam a vontade de ler dos pequenos.


Outra pergunta comum entre quem cuida das crianças é: qual a importância da literatura na Educação Infantil? A bem da verdade, a leitura é um hábito importante para todas as fases da vida de uma pessoa.


Na Educação Infantil, a literatura é importante porque ela auxilia a criança no processo de alfabetização, resultando em um aumento do vocabulário e no aperfeiçoamento da escrita, além de estimular a criatividade e ampliar a visão de mundo da criança.


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Como vimos, a literatura infantil é uma ferramenta importante para a formação das crianças. Para falarmos mais sobre como ela pode ser transformadora na vida dos pequenos, entrevistamos Janine Rodrigues, 38 anos, autora de mais seis obras infantis e fundadora do projeto Piraporiando, voltado para uma educação inclusiva, antirracista e antibullying.


Janine ganhou vários prêmios por causa da qualidade das suas obras, entre eles, o Prêmio Destaque Artístico Cultural da Sociedade Brasileiro de Belas Artes, na Áustria, e o Prêmio Latino Americano de Excelência pela Academia de Letras de Rosário, na Argentina. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:


ME: Como a literatura pode contribuir para uma educação especial inclusiva?

Janine: Ela tem uma coisa muito bacana que é o vínculo que a gente cria com a história e os seus personagens. É impossível a gente ler um texto e não fazer uma análise crítica sobre o que lemos, mesmo que de forma despercebida. 

Trazendo para o universo infantojuvenil, essas conexão é ainda mais forte, não é a toa que a gente lembra dos nossos personagens mais queridos da infância. Isso acaba imprimindo na gente uma coisa muito forte que é essa memória com esses personagens. E esse viés é muito bacana para a educação, que é esse personagem ou da própria história. E trabalhar esses temas que são mais difíceis ou temas que a sociedade enxerga como tabus. E criando esses temas, esses personagens, você vai criando laços e abrindo caminho.


ME: Na infância, como foi o seu contato com a literatura?

Janine: Eu morei um tempo no interior do Rio de Janeiro, em uma cidadezinha chamada Cardoso Moreira, e estudei numa escola bem pequenininha que incentivava muito as atividades artísticas: cantar, ler, desenhar. E eu sempre gostei muito de história, de contar história. Além disso, eu tenho um cunhado que incentivou muito a minha leitura na infância, pois ele é professor de português e de literatura. E quando eu era criança, ele me dava livros, então isso sempre foi muito fomentado na minha infância. Eu ganhei o Menino Maluquinho, do Ziraldo, quando tinha 6 ou 7 anos, e tenho o livro até hoje, ele está todo amarelinho, mas eu o guardo até hoje. Ele é muito importante para mim.

E em relação ao meu trabalho, eu trabalhei 12 anos com gestão. Em Uma área que eu trabalhava com estudos e documentos muito técnicos e que precisava chegar para a comunidade local como algo mais fluído. Então eu criava histórinhas para que esse conteúdo chegasse nas escolas e as crianças tivessem interesse por eles. Então sempre tive contato pela leitura, pela literatura, pela contação de história. Além disso, a minha mãe é uma mãe muito amorosa, mas ela é chapa quente, então quando eu era criança eu desenvolvi uma técnica: eu escrevia cartinhas para a minha mãe e eu as escondia embaixo do travesseiro e enchia de perfume, florzinha, e pedia coisas para ela, como um brinquedo novo ou para dormir na casa de uma amiga.

Com isso de escrever cartinhas para a minha mãe, eu passei a gostar de escrever histórias, então comecei a participar de clubes de férias de leitura e fui escrevendo, escrevendo. 


ME: Quais autores influenciaram ou ainda influenciam as suas obras?

Janine: Eu gosto muito dos autores mais atuais, mas atual no sentido de que estão mais conhecidos, mas que a gente já lê a muito tempo. Cito a Conceição Evaristo, sem dúvidas, uma autora super importante na literatura infantojuvenil. Também tem uma geração mais nova que inspira muito os nossos trabalhos, como o Julião, que é um quadrinista, um jornalista e escritor de literaturas infanto juvenis. Obviamente, o Mauricio de Sousa, que fez parte de toda a minha vida e me inspirou muito. O próprio Ziraldo. Eu amo o Tolstói, é outra coisa, mas sou apaixonada pelo Tolstói e Milan Kundera, que também não tem a ver com literatura infantil, mas me influenciaram em relação ao humano. Tudo aquilo que é do campo do humano me toca e me inspira muito. 


ME: Em relação aos seus leitores, qual é a faixa etária da maioria deles?

Janine: Varia bastante, mas é dos 3 até os 12 anos de idade, em geral. 


ME: E Janine, as suas obras falam de temas como bullying e racismo, sendo bem recebidas pelas crianças. Mas, a gente sabe que é comum os pais se informarem sobre o que os filhos estão lendo, então como eles recebem esses temas?

Janine: É muito bacana. Uma coisa que acontece muito é que muitos pais, muitas mães, muitas famílias, têm dúvidas e curiosidades porque são conteúdos que eles não tiveram quando eram crianças. É importante falar que foi nos últimos dez anos que nós começamos a falar de modo mais intenso sobre algumas temáticas, sobretudo essas temáticas da diversidade, da gente ter mais empatia. Esses temas são recentes. A geração da década de 80, 90, 70 nem se fala, esse pessoal não teve acesso a uma série de conteúdos que a gente fala agora. Hoje, também temos a ajuda da internet que ajuda a difundir e a discutir alguns assuntos.

Tem pai e mãe que, quando criança, não se relacionaram com esses assuntos . Então, agora os filhos estão em outro mundo, em outro momento histórico. É muito comum, às vezes, a gente receber comentário e dúvida de pai e mãe que é igual ao de uma criança de dez anos. E isso tem um porquê: é porque esses assuntos estão sendo falados agora. Então é uma receptividade com muito afeto, a gente recebe muito carinho das famílias, temos recebidos e-mails, cartas, é muito bacana, tanto é que no dia do meu aniversário eu recebo presentes dos pais e das mães.


ME: Em uma entrevista sua você falou a seguinte frase: “a criança vive em sociedade e não precisamos criar um mundo que não existe para ela”. Então, como é, para você, esse processo criação? 

Janine: Quando eu escrevo uma história, eu não penso na faixa etária. Não penso que estou escrevendo para uma criança, eu apenas escrevo. Essa história caminha para um recorte infantojuvenil por uma série de questões, porque as crianças se identificam mais com essas história, mas não é porque eu escrevo para elas. Eu escrevo. Escrevo para o mundo, escrevo para a vida, escrevo para mim. Então, acho que uma coisa que eu não faço é menosprezar a capacidade intelectual dessas crianças, primeiro porque eu não estou pensando numa faixa etária, eu estou escrevendo. E também porque a criança tem uma capacidade total de interpretação. Algumas vão entender uma coisa, outras vão interpretar alguma outra coisa. Então, quando eu falo dessa realidade, a gente pode sim ter uma história que vai para o campo da fantasia, da magia, do lúdico, eu adoro  isso, de criar coisas que não existem, mas o perigo é quando a gente faz isso achando que qualquer elemento de uma vida real, de algo concreto, a criança não vai entender ou que é muito forte para ela. É achar que você não pode falar sobre morte com uma criança ou falar sobre perda. Sendo que pode falar sim, porque isso é a vida, e as crianças estão na vida. A gente pode falar sobre tudo, se falar de uma maneira genuína. A gente não precisa construir um mundo só porque é da criança. Se eu construir uma história que vai para o fantástico, para o imaginário, isso é uma ideia, um sentimento genuíno. Mas se ela é anterior ao público, se eu vou escrever isso porque ela é para a criança, então isso deixa de ser genuíno. E aí é como escrever por encomenda.


ME: Em outras oportunidades você comentou sobre as dificuldades que passou no começo da carreira. Hoje, em que você já tem um espaço consolidado no mundo editorial, daria qual conselho para o jovem que pensa em ser escritor ou escritora?


Janine: Escrever sem pensar para onde vai aquela história. Às vezes, eu fico triste, porque eu vejo uma juventude muito talentosa, mas que está escrevendo para aquela editora. Porque aquela editora tem um perfil de histórias daquele jeito, aí ela escreve uma história que se adeque aquele público, àquela editora ou que vai se adequar àquela faixa etária. E eu não acredito nisso, não acho que seja genuíno. Acho que a gente precisa escrever a própria história, ler de novo, escrever de novo para entender qual é a nossa personalidade. Aí, depois, pensar: eu tenho essa história, esse conteúdo, essa personalidade, então, quais são as oportunidades que existem para essa personalidade? E não a gente antecipar isso, se não a gente fica despersonalizado, sem identidade. Temos que fortalecer o que a gente acredita. O principal conselho que eu daria é esse: escreva e se conheça enquanto autor. Conheça o seu texto, conheça a sua personalidade. 


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