Saúde mental infantil: como abordar o tema em casa e na escola

Dentre muitas coisas que a pandemia provocada pela Covid-19 escancarou, uma delas foi a necessidade de se olhar para a saúde mental infantil. Seis meses após a suspensão das aulas presenciais, muitas escolas reabriram as suas portas a fim de proporcionar um refresco em meio ao confinamento das crianças. 


A preocupação surge através do depoimento de mães e pais com relação ao estado emocional de seus filhos. Dentre as mudanças de comportamento mais citadas, estão a ansiedade, a irritabilidade, picos de agressividade e de tristeza. Tal instabilidade emocional é normal, devido à situação atual, porém é preciso ficar atento.


Setembro é o mês de prevenção ao suicídio, mais conhecido como Setembro Amarelo. Pensando nisso, entrevistamos a psicopedagoga Érica Mantovani, em uma conversa sobre a importância de trabalhar a saúde mental na escola e dentro de casa.


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Como cuidar da saúde mental infantil?

Existem vários fatores que podem afetar a saúde mental das crianças e adolescentes, porém, tanto a escola quanto os responsáveis devem aprender a distinguir um comportamento normal de uma atitude que destoa do habitual. 


Na adolescência, por exemplo, é comum que as crianças fiquem mais isoladas, pois é dessa forma que elas passam a se conhecer melhor e criar criar a sua própria identidade. Mas, ficar trancado no quarto durante um tempo excessivo somado à outros tipos de comportamento, pode ser um ponto de alerta. 


“É preciso saber diferenciar os traços que podem demonstrar que a pessoa possui uma patologia, independente se ela é criança, adolescente ou adulta”, afirma Mantovani. 


Já com as crianças menores, dificuldade para dormir, apatia, falta de prazer em brincar, excesso ou falta de fome, e problemas de interação com outras pessoas, são alguns indícios de algo que não vai bem.


Mas, o que você pode fazer para cuidar da saúde mental da sua criança?


Existem alguns hábitos que podem ajudar o seu filho a ser mais saudável e equilibrado emocionalmente. Confira:


Estabelecer uma rotina

Ter horário para acordar, almoçar, fazer a lição de casa, brincar, tomar banho e dormir ajuda as crianças a se organizarem. A rotina traz uma sensação de conforto e diminui também a ansiedade. 

Praticar atividade física

Ao praticar esportes ou quaisquer atividade física o corpo libera hormônios que provocam sensação de prazer e bem-estar, auxiliando também na capacidade de concentração e na qualidade do sono. 


Estimular a autonomia e a autoestima

Incentive a sua criança a realizar as tarefas e tomar decisões sozinha, com o seu acompanhamento claro. Ao ver que ela pode solucionar problemas e ultrapassar dificuldades de maneira independente, ela se torna mais confiante, o que contribuirá para a construção da autoestima. 


Saúde mental infantil na pandemia

A pandemia alterou a rotina movimentada das crianças composta por escola, aula de idiomas e treino de natação, delimitando-os, muitas vezes, ao espaço existente dentro dos seus lares. Essa impossibilidade de poder ver os amigos, brincar e fazer outras atividades alterou o humor e comportamento da grande maioria das crianças e adolescentes. Em alguns casos, resultou até em fobias. A psicopedagoga Érica Mantovani compartilha a sua experiência.


“Algumas crianças criaram fobia de tocar no papel e eu tive que receber todas as atividades no computador. E aí as mães ficaram preocupadas: 'Ah, Érica, isso vai ficar pra sempre?'. Alguns comportamentos que não são habituais foram adquiridos na quarentena, mas temos que ter muita cautela em dizer: 'Ah, esse comportamento vai ficar pra sempre'", explica a educadora.


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Segundo ela, é preciso ter calma e paciência durante esse período e aguardar o fim da quarentena para entender se é algo passageiro ou se o comportamento persiste e precisa ser acompanhado por um médico. 


Com o objetivo de auxiliar os pais nesse processo, algumas instituições de ensino têm trabalhado o tema da saúde mental por meio de atividades pedagógicas, de acordo com o ciclo escolar. No Colégio Mater Dei, por exemplo, os professores uniram à alfabetização aos sentimentos vividos durante o isolamento social.


“No 1º ano [do Ensino Fundamental] nós fizemos um alfabeto da quarentena, pois eles estão aprendendo a escrever e surgirão vários sentimentos: na letra “a” apareceu amor, na letra “éle” apareceu luto, na “eme” apareceu monotonia, na “dê” dedicação, e com “pê”, paciência”, conta Mantovani. 


Nas turmas mais velhas, os alunos usaram a escrita e a oralidade para expressar suas emoções, através de redações e podcasts. A psicopedagoga explica que ao fazer isso, a escola abre espaço para que as crianças e adolescentes falem como estão se sentindo, acolhendo-os.


Mantovani complementa que atividades como essa ajudam também a identificar os estudantes que, por algum motivo, estão com a saúde mental abalada. 


Setembro Amarelo nas escolas: abordar ou não?

O Setembro Amarelo é um tema muito abordado nos ambientes de trabalho e também nas universidades, alertando para as possíveis consequências que o acúmulo de função, falta de reconhecimento, pressão para atingir metas e passar nas provas da faculdade podem ocasionar.


Entretanto, a psicopedagoga afirma que com os mais jovens, principalmente com as crianças, o assunto deve ser tratado de outra forma e não como algo cotidiano.


“Nós, como escola, trabalhamos na prevenção. Fazemos isso através de temas e projetos pedagógicos que tratam do assunto, abrindo espaço para esse tipo de discussão,” explica Mantovani. “Se a gente percebe que alguma criança está incomodada, alertamos os pais.”


Como trabalhar a saúde mental no retorno às aulas

Alguns estados já retornaram às aulas presenciais e em outros, o governo adiou a reabertura das escolas para outubro, como é o caso de São Paulo. Muito se fala das medidas sanitárias e de higienização que as escolas devem tomar para receber os professores e alunos com segurança. Entretanto, Mantovani alerta também sobre a importância das instituições em se preparar para atender demandas relacionadas à saúde mental de seus alunos.


“Tem que se pensar em uma volta e em todos os seus aspectos: do ponto de vista de segurança, do rodízio de alunos, do uso de máscaras e também do emocional”, ressalta a psicopedagoga. “O aspecto emocional é muito importante, sempre foi, mas precisamos reestruturar de outra maneira e olhar para isso com mais carinho.”


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