Educação para autistas: como trabalhar o transtorno na escola e em casa

105.842. De acordo com o Censo Escolar de 2018, esse é o número de crianças matriculadas nas escolas brasileiras que possuem o transtorno do espectro do autismo (TEA). Mais do que identificar os alunos com o transtorno, esse dado alerta sobre a importância da educação para autistas e o que as instituições de ensino e os pais podem fazer em casa para auxiliar no desenvolvimento infantil dessas crianças.


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O que é o autismo?

O transtorno do espectro do autismo (TEA), ou autismo, é uma condição de saúde neurológica caracterizada por um déficit de interação social - seja através da comunicação verbal ou não verbal - e por um comportamento restrito e repetitivo. Existem vários subtipos do transtorno com diferentes níveis de comprometimento, por isso o termo “espectro” é utilizado por especialistas para caracterizar o TEA. 



Como identificar o autismo na escola ou em casa?

Geralmente, os sinais de autismo se manifestam logo nos primeiros meses de vida, contudo, nesta fase ainda é difícil notá-los. Por volta dos dois anos de idade, período em que a criança começa a ter uma interação maior com outras pessoas e realizar atividades mais complexas, algumas características do transtorno se tornam mais perceptíveis, podendo ser observados tanto pelos professores quanto pela família.


Confira abaixo alguns sinais que podem caracterizar o autismo:


  • Evitar contato visual com professores, pais e colegas de turma;

  • Apego por um único objeto ou brinquedo;

  • Não atender pelo nome, como se não estivesse ouvindo; 

  • Preferência por brincar sozinha ou falta de interação com outras crianças (não brincar junto, não compartilhar brinquedos);

  • Explosões comportamentais, como acessos de raiva em que há dificuldade em acalmá-la;

  • Movimentos repetitivos (esteriotipias) que podem acontecer em movimento de estresse, medo, ansiedade ou também por estar muito feliz;

  • Dificuldades em se comunicar e expressar sentimentos, bem como em “ler” o outro;

  • Repetição de palavras ou frases em locais inapropriados ou sem função comunicativa.

Como dito anteriormente, o TEA é abrangente, com diversas especificidades e graus, dessa forma, nem todas as crianças com autismo irão apresentar as mesmas características. É importante ressaltar que a identificação precisa do autismo deve ser feita com a consulta de um profissional especializado, como um neuropediatra ou um pediatra. 


Entender as características e necessidades desse transtorno é fundamental para que as escolas possam implementar uma educação para autistas adequada, inclusiva e eficiente. 



Educação para autistas: como trabalhar o autismo na sala de aula

Não existe uma diretriz clara e definida sobre como trabalhar com crianças autistas dentro da sala de aula. Isso porque cada pessoa expressa o transtorno de forma diferente, ou seja, duas crianças diagnosticadas com TEA podem responder de maneiras distintas para a mesma atividade pedagógica. Sendo assim, cabe então a escola personalizar a educação para autistas, respeitando as particularidades de cada estudante. 


Para que o processo de aprendizado e inclusão desta criança ocorra de maneira efetiva, é importante que haja uma comunicação próxima entre instituição de ensino e família. Nem todos professores possuem experiência ou estão familiarizados com o transtorno, dessa maneira, um trabalho multidisciplinar com profissionais especializados pode ajudar o educador a adequar o sistema de aprendizagem a fim de potencializar as habilidades da criança autista. 


Listamos abaixo algumas medidas que podem ser trabalhadas para implementar a educação para autistas na sala de aula de forma eficiente e inclusiva:



Adapte o ambiente da sala de aula

Após identificar as necessidades do aluno, a escola deve adaptar a sala de aula evitando aspectos que possam prejudicar a sua aprendizagem. Algumas crianças autistas, por exemplo, são hipersensíveis a certos estímulos sensoriais, como luz, som, cheiro ou imagens. Reconhecer questões que podem causar algum tipo de desconforto para o estudante é essencial.


Reconheça e explore as habilidades do aluno

Assim como a sala de aula, o sistema de aprendizado também deve ser adaptado para as crianças com TEA. Para isso, é necessário que o professor reconheça as dificuldades e facilidades do aluno, disponibilizando as ferramentas necessárias para maximizar o conhecimento da criança. 

Suponha que o estudante tenha facilidade com a disciplina de matemática e, ao mesmo tempo, sinta-se atraído por elementos visuais. Ao invés de passar o conteúdo na lousa, o professor pode adaptar o material através de exercícios lúdicos, como jogos de tabuleiro adaptados ou utilizando materiais que tenham a ver com o interesse da criança (animais, natureza, carros). O importante aqui é que o educador potencialize as habilidades da criança, incentivando-a e mantendo-a interessada.

Determine uma rotina escolar

Crianças com TEA possuem dificuldades em lidar com mudanças na rotina. Quadros de rotina que expliquem as atividades do dia e os horários que acontecerão ao longo do período de aulas são algumas ferramentas que ajudam a evitar crises de ansiedade e agitação nos alunos autistas. Caso haja alguma mudança ou atividade nova, leve a criança para conhecer o novo espaço ou apresente a situação antecipadamente para verificar se ela se sente confortável. 

Promova a inclusão

O autismo ainda é um transtorno rodeado por estereótipos na sociedade. Promover a inclusão dessas crianças na escola é o primeiro passo para a construção de uma sociedade mais equitária. Isso deve ser feito com corpo de docentes - através de debates sobre o tema e capacitação de profissionais - e também os alunos, por meio de atividades e projetos que abordem a diversidade e incentivem a empatia. Acima de tudo, a escola tem o papel de acolher os alunos autistas e oferecer as mesmas oportunidades de aprendizado.  


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Como os pais podem ajudar os filhos com autismo

Uma das melhores maneiras de ajudar o seu filho(a) com autismo é procurando a ajuda de um profissional especializado. Durante a conversa, questione tudo o que gostaria de saber, todos os seus medos com relação ao transtorno e peça orientações referente ao cuidado da criança.

 

Visto que o transtorno abrange uma gama de sintomas, descobrir em qual grau do espectro a criança se encontra, ajudará os responsáveis a direcionar a educação dentro de casa, adaptando-a conforme às necessidades de seu filho(a). 

 

Confira abaixo algumas sugestões para os pais na educação de filhos autistas:

  • Informe-se;

  • Procure a ajuda de um profissional especializado que o ajude a criar estratégias de aprendizado e educação;

  • Incentive a independência e autonomia com o cuidado pessoal;

  • Acompanhe o processo de aprendizado na escola;

  • Estabeleça uma rotina e evite mudanças repentinas;

  • Dividir as responsabilidades dentro de casa;

  • Crie momentos de convívio com família e amigos para que o seu filho desenvolva habilidades sociais.

Geralmente, a primeira atitude dos pais com relação aos filhos é a superproteção, principalmente quando recebem o diagnóstico de algum tipo de transtorno, como o TEA. É claro que, dependendo da gravidade do autismo, a dependência da criança será maior, porém, desenvolver o senso de independência desde cedo e proporcionar estímulos de aprendizados adequados podem exercer grande influência no desenvolvimento e na evolução da criança.

Assim como todas as pessoas entre quatro e 17 anos de idade, as crianças com TEA possuem direito ao acesso a uma educação de qualidade, conforme previsto na lei 12.764/2012. No entanto, é preciso que haja um esforço entre responsáveis, professores e instituições a fim de acolher e atender esses alunos de maneira adequada, atendendo às necessidades de cada um.

Esperamos que as dicas acima ajudem todos os envolvidos na missão de promover uma educação para autistas que seja digna, efetiva e inclusiva.


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